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quarta-feira, 2 de julho de 2008

12 anos passados....


Texto para o catalogo da exposição Restos da floresta do Escultor Adão Contreiras em 1996

Que pode um artista fazer? Quando ama a sua terra, e quer permanecer junto dos seus, sem com isso perder a lucidez, a intervenção, o diálogo com a contemporaneidade? Que poderá ele fazer quando a informação é escassa e o nível de apreciação dos valores culturais é nulo ou muito baixo?
Que poderá ele fazer quando as elites ou desertam em busca de melhores perspectivas e se "estrangeiram" ou se pavoneiam do pouco que as diferencia manifestando um gosto snob e vazio de significado cultural? Que poderá ele fazer se por tudo isto faltam lugares onde se possa trocar informação e dar a conhecer as obras e se quem as compra,por vezes manifesta um profundo desinteresse pelo valor cultural, apenas cuidando do lado decorativo e sumptuário das mesmas?
Que poderá ele fazer? Se não ser um cabotino destinado a "pateta da aldeia". Se não tentar sobreviver das migalhas que aqui e além sobram das grandes orgias pseudo-culturais. Se não resistir intelectual e emocionalmente à secura destes desertos na esperança que o futuro o venha a descobrir e entender, para que a sua existência não seja tão inútil como o fazem sentir.
Cabe então dizer que uma comunidade que não preze os seus artistas não tem rosto nem voz, apenas o embrutecido deambular pelos caminhos que os interesses de outros traçaram para nós. Por isso os homens do poder, se o querem representativa do povo que os elege, têm por obrigação fomentar o trabalho dos intelectuais que em todas as áreas trabalham para dar um rosto à sua terra. O universal encontrará o local, se forem criados meios para que o pensamento e a criação se façam aparecer de forma livre, sem controlismos e dependências castradoras.
Com esta pequena introdução pretende-se chamar a atenção para o contexto donde parte o trabalho de Adão Contreiras e de outros artistas que, como ele, sofreram a triste condição de permanecer no deserto cultural do anterior regime e no não menos miserável cenário do novo-riquismo soberbo e ignorante dos dias de hoje. Os trabalhos ora apresentados, dedicados ao tema da floresta, reflectem a preocupação de olhar um mundo em desaparecimento e de recuperar o seu espírito através da arte, com toda a mescla de valores e sentimentos de que a visão do artista é capaz.
Partindo dos reais restos de árvores, desperdícios industriais, Adão
Contreiras reinventa uma floresta onde cada momento do SER que aí habi­ta é surpreendido numa pose cheia de ternura e ironia. Ironia essa que, fazendo juz ao nome do artista, nos remete para um cenário onde um hipotético Adão revisitasse o seu paraíso perdido e, pasmado com a destruição do outrora idílico local, o recriasse com raiva e teimosia, sonhando a vitória do humor sobre a tirania.
O resultado é um conjunto de peças carregadas de um simbolismo não exagerado, onde o decorativo não está ausente e que se impõem pela nobreza dos materiais (ferro e madeira), numa rusticidade recuperada por um imaginário que nas bigornas ao rubro traçou os contornos do gosto andaluz pelos forjados arabescos e que aqui se aliaram a formas ora míticas e intemporais, ora nascidas do arsenal da modernidade, numa trama complexa de soluções barrocas próprias da pós-modernidade.
Há em todos os trabalhos de Adão Contreiras um tributo ao seu Algarve ainda que velado pela forte ironia com que os reveste, como que procurando elevá-los à dimensão de uma universalidade contemporânea. Possivelmente o artista anteviu nas possibilidades históricas do algarvio actual: o diálogo com o mundo inteiro sem ter de sair da sua terra, assimilando pelo seu dom natural de comunicação as perspectivas mais progressistas da cultura actual, talvez até a recuperação de algum protagonismo histórico que teve durante a ocupação árabe e nos descobrimentos.
Será então possível a um artista algarvio, sem daqui partir, ter diálogo com a modernidade? Sem podermos de imediato responder a essa pergunta, podemos no entanto dizer que se houve alguém sensível a todas as possibilidades que a partir da sua terra e dos seus valores se podiam abrir, foi com certeza este artista, que conserva uma promissora jovialidade criativa que urge premiar e apoiar, para que a nossa identidade se construa com os autênticos valores que a habitam e que ventos muitas vezes mais débeis e alheios vêm varrer por incúria de quem pode e manda.
Bela-Mandil 1996
José Bivar