quarta-feira, 2 de julho de 2008

TRACTOR Faro Capital da Cultura -2005

" O termo Tractor designa usualmente uma máquina potente, utilizada em trabalhos de movimentação de terras ou como reboque. Contudo, a sua escolha para título desta exposição ficou a dever-se sobretudo à sua raiz latina tractu, que traz consigo a ideia de 'puxar' ou de 'tracção'. No sentido de contribuir para a afirmação cultural e socio-económica da cidade de Faro e do Algarve, de acordo com os desígnios do evento Faro - Capital Nacional da Cultura 2005, esta exposição foi inicialmente pensada como (mais um) motor capaz de 'arrastar' o público e de 'revolver' o solo da cultura local. Pretendendo, desde a sua concepção, envolver os principais agentes culturais - artistas, entidades oficiais, associações e instituições dedicadas à difusão e promoção da cultura -, Tractor surgiu com o objectivo de proporcionar uma visão panorâmica das tendências actuais da arte contemporânea. Nesse sentido, pretendeu-se oferecer, sem a presunção de o conseguir completamente, uma mostra representativa dos artistas surgidos desde meados dos anos noventa - incluindo os de origem algarvia, ou que residissem e trabalhassem nesta região. Também para isso, Tractor foi concebida como ocasião para o questionamento e a discussão - promovendo a interacção entre públicos, artistas e o seu trabalho -, contando para tal com a participação de personalidades com relevância teórica ou artística e experiência no campo da temática cultural contemporânea. Durante o período da exposição, Tractor contará ainda com eventos nocturnos - onde, num espaço adjacente, se poderá apreciar vídeo, música e performance, em contexto descontraído e festivo - essencialmente destinados à atenção de um público jovem que raramente tem, no contexto local, ocasião para apreciar obras de arte contemporânea. De todo este projecto, será feito um registo documental final que possa ser, mais que uma memória do facto, uma reflexão acerca do actual mundo da arte e da sua relação com o tecido social, assim como uma prova do nosso contributo para a vitalidade da cultura nacional. Este evento foi proposto a Faro, Capital Nacional da Cultura 2005, pela AAPAAA e é co-produzido pelo projecto ARTADENTRO - Arte Contemporânea"
"Acreditamos que com Tractor - ao trazer a Faro obras e artistas nacionais e do estrangeiro, desconhecidos ou raramente vistos no Algarve, juntamente com alguns jovens artistas locais de qualidade -, se conseguirá proporcionar o confronto crítico tão necessário, aos artistas, ao público e demais agentes culturais, assim como um novo conjunto de contactos que possa servir de alicerce ao futuro desenvolvimento da região." in Catalogo

12 anos passados....


Texto para o catalogo da exposição Restos da floresta do Escultor Adão Contreiras em 1996

Que pode um artista fazer? Quando ama a sua terra, e quer permanecer junto dos seus, sem com isso perder a lucidez, a intervenção, o diálogo com a contemporaneidade? Que poderá ele fazer quando a informação é escassa e o nível de apreciação dos valores culturais é nulo ou muito baixo?
Que poderá ele fazer quando as elites ou desertam em busca de melhores perspectivas e se "estrangeiram" ou se pavoneiam do pouco que as diferencia manifestando um gosto snob e vazio de significado cultural? Que poderá ele fazer se por tudo isto faltam lugares onde se possa trocar informação e dar a conhecer as obras e se quem as compra,por vezes manifesta um profundo desinteresse pelo valor cultural, apenas cuidando do lado decorativo e sumptuário das mesmas?
Que poderá ele fazer? Se não ser um cabotino destinado a "pateta da aldeia". Se não tentar sobreviver das migalhas que aqui e além sobram das grandes orgias pseudo-culturais. Se não resistir intelectual e emocionalmente à secura destes desertos na esperança que o futuro o venha a descobrir e entender, para que a sua existência não seja tão inútil como o fazem sentir.
Cabe então dizer que uma comunidade que não preze os seus artistas não tem rosto nem voz, apenas o embrutecido deambular pelos caminhos que os interesses de outros traçaram para nós. Por isso os homens do poder, se o querem representativa do povo que os elege, têm por obrigação fomentar o trabalho dos intelectuais que em todas as áreas trabalham para dar um rosto à sua terra. O universal encontrará o local, se forem criados meios para que o pensamento e a criação se façam aparecer de forma livre, sem controlismos e dependências castradoras.
Com esta pequena introdução pretende-se chamar a atenção para o contexto donde parte o trabalho de Adão Contreiras e de outros artistas que, como ele, sofreram a triste condição de permanecer no deserto cultural do anterior regime e no não menos miserável cenário do novo-riquismo soberbo e ignorante dos dias de hoje. Os trabalhos ora apresentados, dedicados ao tema da floresta, reflectem a preocupação de olhar um mundo em desaparecimento e de recuperar o seu espírito através da arte, com toda a mescla de valores e sentimentos de que a visão do artista é capaz.
Partindo dos reais restos de árvores, desperdícios industriais, Adão
Contreiras reinventa uma floresta onde cada momento do SER que aí habi­ta é surpreendido numa pose cheia de ternura e ironia. Ironia essa que, fazendo juz ao nome do artista, nos remete para um cenário onde um hipotético Adão revisitasse o seu paraíso perdido e, pasmado com a destruição do outrora idílico local, o recriasse com raiva e teimosia, sonhando a vitória do humor sobre a tirania.
O resultado é um conjunto de peças carregadas de um simbolismo não exagerado, onde o decorativo não está ausente e que se impõem pela nobreza dos materiais (ferro e madeira), numa rusticidade recuperada por um imaginário que nas bigornas ao rubro traçou os contornos do gosto andaluz pelos forjados arabescos e que aqui se aliaram a formas ora míticas e intemporais, ora nascidas do arsenal da modernidade, numa trama complexa de soluções barrocas próprias da pós-modernidade.
Há em todos os trabalhos de Adão Contreiras um tributo ao seu Algarve ainda que velado pela forte ironia com que os reveste, como que procurando elevá-los à dimensão de uma universalidade contemporânea. Possivelmente o artista anteviu nas possibilidades históricas do algarvio actual: o diálogo com o mundo inteiro sem ter de sair da sua terra, assimilando pelo seu dom natural de comunicação as perspectivas mais progressistas da cultura actual, talvez até a recuperação de algum protagonismo histórico que teve durante a ocupação árabe e nos descobrimentos.
Será então possível a um artista algarvio, sem daqui partir, ter diálogo com a modernidade? Sem podermos de imediato responder a essa pergunta, podemos no entanto dizer que se houve alguém sensível a todas as possibilidades que a partir da sua terra e dos seus valores se podiam abrir, foi com certeza este artista, que conserva uma promissora jovialidade criativa que urge premiar e apoiar, para que a nossa identidade se construa com os autênticos valores que a habitam e que ventos muitas vezes mais débeis e alheios vêm varrer por incúria de quem pode e manda.
Bela-Mandil 1996
José Bivar

Bio-poem


Texto de apresentação para a 1ªexposição colectiva no Congresso do Algarve em Portimão 1997

A Associação de Artistas Plásticos do Algarve e Amigos da Arte constituída em 25/10/97, pretende ser uma voz no Algarve ao serviço da arte, dos artistas e de todas as pessoas para quem a arte e a cultura são um modo de vida ou de a saber Viver.
O nosso grande poeta F. Pessoa diria: "que é o homem sem o seu sonho? - Senão um cadáver adiado que procria.
E é pelo "sonho que vamos", quando em nome da arte nos juntamos para dar força a esses "poetas eternamente atrofiados" que no fundo de nós reclamam da falta de sentido, que esta "vidinha" de pequenas superficialidades e esmagadoras rotinas nos cria.
A arte contemporânea obedece a estratégias várias que passam pelos interesses manifestos dos grupos sociais actuantes e dos artistas a eles pertencentes ainda que algo de profundamente subjectivo remeta a actividade artística para os domínios do infra e supra humanos, é nas grandes ideologias sociais que ela melhor se retraia e reconhece.
Razão pela qual nem toda a arte faz história e seja necessário que a criação de alguma forma reflicta e interfira no seu tempo.
As "últimas modas" feitas arte nem sempre possuem a maturidade e o aprofundamento necessários para identificar os movimentos de fundo da história da cultura...
Valores como originalidade, honestidade, profundidade, estarão sempre e em qualquer ótica ligados ao trabalho de investigação autentico e maturado, é preciso no entanto não confundir essas qualidades com a mistificação das mesmas, trabalho por si só não é valor se não for guiado pela visão de um saber assente na experiência, na cultura e numa vocação real e autónoma sem a qual não se pode "voar" nem ambicionar.
Uma associação de Arte é uma reunião de esforços colectivos para a maturação e qualificação do trabalho dos criadores em geral, não nos compete só definir quem é que deve ser ou não reconhecido, mas sim dar a conhecer o que se faz, embora integrando valores mínimos de selectividade e qualidade que respondam pela DIGNIFICAÇÃO do trabalho dos autores face a autenticidade com que se representam e criam.
Existem inúmeras posturas pessoais nesta agremiação defendendo as tendências mais dispares e contraditórias, que por certo gerarão acesas polémicas, mas que contribuirão sempre para A EVOLUÇÃO DA ARTE na nossa região.
O importante a meu ver é estarmos aqui a afirmar, perante instâncias que no passado pouco souberam respeitar o valor do trabalho intelectual, o propósito de sermos uma entidade vigilante e interveniente nas políticas culturais a adoptar nestas matérias, para que o famigerado individualismo .Artístico não se torne num desfavor que venha reforçar a manipulação dos artistas e a sua subordinação a factores de menor dignidade.
Reconhecemos a autoridade das entidades nacionais e internacionais que gestionam o saber artístico, queremos intermediar entre elas e o público menos informado para a criação de uma maior "massa crítica".
É imenso o trabalho a fazer para que possamos estar um dia na linha da frente da compreensão do nosso tempo, ambição de toda a grande Arte, e nossa utopia de fundo.
Acreditamos que o nosso lado "periférico" também terá as suas vantagens, se soubermos ultrapassar bairrismos e outros provincianismos estéreis, que sempre nos tem atrofiado.
O tempo é de reunir esforços e crescer para um sonho à medida da nossa alma, que hoje como no passado nos irmanou com o mundo, nesse cosmopolitismo universal cujo o maior centro em Portugal é sem dúvida o Algarve.
José Bivar
Presidente da AAPA 1997

terça-feira, 1 de julho de 2008

A AAPAAA - Associação dos Artistas Plásticos do Algarve e Amigos da Arte - foi criada a 15 de Outubro de 1997 em Faro, com os objectivos de

diminuir o isolamento em que se encontram os artistas locais, de contribuir para a criação e desenvolvimento de públicos e promover a obra dos seus associados. Desde a sua fundação, a AAPAAA tem vindo a realizar mostras colectivas que integram todas as disciplinas das artes plásticas. Em 1977, nas galerias Margem, Trem e Arco, em Faro; em 1998, uma mostra na Sala de Exposições do Parque Natural da Quinta Marim, em Olhão, e outra no Carlton Alvor Hotel, em Portimão; em 1999/2000, a Bienal Algarve/ Andaluzia, em Faro e Huelva; em 2003, a iffi edição de Sonhos na Casa Amarela, na Fábrica da Cerveja em Faro e, em 2004, a 2ffi edição de Sonhos na Casa Amarela, no mesmo espaço. Ainda em 2004, colaborou com a iniciativa Arte Viva, em S. Brás de Alportel, e participou no Festival Mundial da Juventude - Fórum Mundial das Culturas / Barcelona 2004, em Barcelona.